Chegar ao momento da colheita é, sem dúvida, um dos ápices na jornada de todo criador de abelhas nativas. É a materialização do zelo, da paciência e da parceria firmada entre você e sua colônia. Mais do que apenas retirar o mel, a colheita é um ritual que exige técnica e, acima de tudo, respeito pelo equilíbrio do enxame.
Em um ambiente urbano, onde os recursos podem ser mais limitados, realizar uma extração consciente é ainda mais fundamental. Uma abordagem equivocada pode comprometer as reservas de alimento da colônia, especialmente em períodos de pouca florada. Por isso, o manejo técnico correto é o que diferencia uma simples coleta de uma colheita verdadeiramente sustentável.
Este guia foi pensado para conduzir você, passo a passo, pelo processo de extração do precioso mel de suas abelhas nativas. Abordaremos desde a identificação do momento ideal até as técnicas que garantem o mínimo de perturbação para a família, assegurando que tanto o criador quanto as abelhas saiam ganhando.
Identificando o momento certo para a colheita
A extração do mel não deve seguir um calendário fixo, mas sim os sinais que a própria colmeia oferece. A pressa é inimiga da sustentabilidade. O momento ideal depende da maturidade dos potes de mel, da estação do ano e das condições climáticas, fatores que garantem um produto de qualidade e a segurança da colônia.
É fundamental observar os potes de armazenamento. O mel está pronto para ser colhido quando os potes estão “maduros” ou operculados, ou seja, selados com uma fina camada de cera. Esse selo indica que o mel atingiu o ponto ideal de umidade, o que evita sua fermentação após a extração.
As estações do ano também ditam o ritmo. A primavera e o verão, períodos de abundância de flores, são ideais para a colheita, pois as abelhas têm fartura de recursos para repor rapidamente suas reservas. Evite extrair mel durante o outono ou o inverno, quando o alimento é escasso e a colônia precisa de todo o estoque para sobreviver.
Por fim, escolha um dia quente, ensolarado e sem vento. Em dias frios ou chuvosos, as abelhas estão menos ativas e a abertura da colmeia pode causar um choque térmico prejudicial. A harmonia com o tempo da natureza é o primeiro passo para uma colheita bem-sucedida.
O ferramental para uma extração limpa
Para realizar uma extração segura e higiênica, você não precisa de um arsenal complexo, mas sim das ferramentas certas. O uso de instrumentos adequados minimiza a perturbação na colmeia e assegura a pureza do mel coletado. A higiene aqui é inegociável: todos os materiais devem ser devidamente esterilizados.
O kit básico para a colheita inclui:
- Seringa com agulha grossa: É a ferramenta principal para a extração. A seringa permite aspirar o mel diretamente dos potes com o mínimo de dano à estrutura da colmeia;
- Potes de vidro esterilizados com tampa: Ideais para armazenar o mel colhido, pois o vidro não interfere no sabor e, quando esterilizado, garante a conservação do produto;
- Pinça longa e fina: Útil para manusear pequenos pedaços de cera ou remover algum detrito que possa ter caído acidentalmente durante o processo;
- Bandeja ou recipiente limpo: Serve como base de apoio para as ferramentas, evitando o contato direto com superfícies não higienizadas.
Lembre-se de preparar todo o seu material antes mesmo de abrir a colmeia. A organização e a limpeza são marcas de um manejo técnico apurado e respeitoso.
Extraindo o mel passo a passo
A extração do mel é um procedimento delicado. Cada movimento deve ser calmo e preciso para não gerar estresse na colônia. A técnica de sucção com seringa é a mais recomendada para ambientes urbanos e criadores iniciantes, pois é pouco invasiva e muito eficiente.
Siga este passo a passo:
- Abertura consciente da colmeia: Com movimentos lentos, remova a tampa da sua caixa racional. Evite fazer barulhos altos ou movimentos bruscos que possam agitar as abelhas;
- Identificação dos potes maduros: Localize a área de armazenamento de alimento, geralmente separada dos discos de cria. Identifique os potes de mel que estão cheios e operculados (fechados com cera);
- Perfuração e aspiração: Com a seringa em mãos, perfure cuidadosamente o topo do pote de mel com a agulha. Puxe o êmbolo suavemente para aspirar o néctar dourado, esvaziando o pote;
- Respeite o limite da colônia: Jamais colete todo o mel disponível. Uma regra de ouro na meliponicultura sustentável é retirar, no máximo, um terço do estoque. O restante é vital para a alimentação e a saúde do enxame;
- Transferência para o recipiente: Após encher a seringa, transfira o mel para o pote de vidro esterilizado. Repita o processo nos potes maduros, sempre respeitando o limite de um terço.
Ao final, feche a colmeia com o mesmo zelo da abertura. Um trabalho rápido, silencioso e gentil garante que a colônia retome suas atividades normais em poucos minutos.
O manejo pós-colheita
O manejo não termina quando a última gota de mel é coletada. A forma como você finaliza o processo é tão importante quanto a extração em si. Após a colheita, recoloque a tampa da colmeia de maneira firme, mas delicada, assegurando que não haja frestas que possam permitir a entrada de predadores, como formigas.
Deixe a colônia se reorganizar tranquilamente. Evite novas inspeções nos dias seguintes para permitir que as abelhas reparem os potes e se recuperem de qualquer perturbação. O monitoramento deve voltar a ser apenas observacional, focado no movimento da entrada.
O mel colhido, por sua vez, deve ser armazenado corretamente. Mantenha os potes de vidro bem fechados em um local fresco e ao abrigo da luz solar direta. Diferentemente do mel de Apis mellifera, o mel de abelhas nativas é mais líquido e pode fermentar se não for guardado sob refrigeração após alguns dias, especialmente em climas quentes.
A coleta do saburá (pólen)
Além do mel, as colmeias de abelhas nativas produzem o saburá, popularmente conhecido como “pão de abelha”. Trata-se do pólen armazenado nos potes, que serve de alimento proteico para as crias. A colheita do saburá também é possível, mas exige ainda mais moderação.
Para coletá-lo, utilize uma espátula pequena e retire apenas uma fração mínima dos potes de pólen, que geralmente têm uma aparência mais granulada e opaca que os de mel. O saburá é um superalimento, mas é o pilar da nutrição da colônia. Portanto, sua coleta deve ser esporádica e muito limitada.
Vimos ao longo deste artigo que dominar a arte da colheita gentil é um marco que eleva a experiência da meliponicultura urbana. É a prova de que é possível, sim, usufruir dos presentes da natureza de forma equilibrada e respeitosa, mesmo no coração de uma cidade. Ao seguir essas técnicas, você não apenas obtém um mel puro e delicioso, mas também se torna um verdadeiro guardião de suas abelhas.
Lembre-se sempre: a melhor colheita não é a que rende mais, mas aquela que celebra a saúde e a prosperidade da colônia. Esse é o verdadeiro sabor do manejo técnico consciente. Agora, você está pronto para vivenciar um dos momentos mais gratificantes que a apicultura urbana pode oferecer.
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